A Narrativa do “Ex-Coletor”: Estratégia Política ou Desinformação?

Cidade Política

Usar a própria trajetória de vida como estratégia de comunicação política é uma prática consolidada e respaldada por teorias de marketing. O grande dilema ético e estratégico, contudo, reside na fidelidade aos fatos. Quando a narrativa é verdadeira, torna-se um poderoso elo de identificação com o eleitor; quando é falseada, transforma-se em um risco para a credibilidade, evidenciando uma manipulação que pode ser desmascarada.

Desde que se elegeu vereador em 2020, Guilherme Gonçalves utiliza a narrativa de sua “origem humilde” para manter o discurso de quem “veio de baixo”, imagem que busca reforçar constantemente nas redes sociais — seu habitat preferido. As declarações de que foi trabalhador rural e coletor de lixo carregam um simbolismo de “pureza de origem” que ressoa em parte do eleitorado, garantindo um “lugar de fala” ao suposto ex-coletor. Essa imagem tem servido como escudo contra críticas à sua atual administração.

Parece difícil questionar as intenções de quem supostamente correu atrás de um caminhão de lixo e hoje é prefeito. No entanto, o fato de ter sido ou não coletor tornou-se o centro de uma rumorosa discussão nas redes sociais e círculos políticos. Sob a ótica do verdadeiro ou falso, a narrativa do “menino que veio de baixo” oscila perigosamente entre a autenticidade e a desinformação.

Há quem afirme que o prefeito nunca exerceu tal função. Ao analisar o histórico profissional registrado em órgãos oficiais e plataformas de transparência, a história do “coletor que virou prefeito” não se sustenta totalmente. Este tema é apenas um aspecto de uma análise mais ampla sobre Guilherme Gonçalves e sua gestão, já considerada por muitos nas ruas como malfadada.

Auxiliar de Serviços Gerais

De acordo com o edital de convocação publicado no Diário Oficial de Ourinhos em 24 de abril de 2013, Guilherme Gonçalves foi aprovado em concurso público para o cargo de “Auxiliar de Serviços Gerais” na prefeitura. A convocação ocorreu ainda na gestão da ex-prefeita Belkis Fernandes.

O documento oficial não menciona o cargo de “coletor de lixo”, função que possui especificidades próprias, como maior exigência de esforço físico e grau distinto de insalubridade. Enquanto o coletor dedica-se exclusivamente à coleta e transporte de resíduos, a função de serviços gerais foca na limpeza e conservação de ambientes internos e externos.

Diretor na SAE: Heroísmo ou Acordo Político?

O Ourinhos Diário conversou com diversos ex-servidores da SAE que desconhecem o fato de o prefeito ter sido coletor. A reportagem apurou que, embora fosse comum deslocar servidores de outros cargos para auxiliar eventualmente na coleta, ex-funcionários da autarquia afirmam categoricamente: “Ele não pertencia ao grupo de coletores”.

Registros lembram que, logo no início do primeiro mandato de Lucas Pocay, em 2017, Guilherme foi nomeado Diretor de Limpeza Urbana na SAE (responsável por garis e coletores) quando em determinado momento, os serviços de limpeza e coleta, então sob responsabilidade de PMO, foram transferidos para Superintendência de Água e Esgoto.. Na ocasião ele teria sido alçado ao primeiro escalão da SAE devido a acordos políticos do partido PODEMOS, então presidido por seu pai, Gerson Gonçalves (Gel), em troca do apoio a Pocay na campanha de 2016. Assim, após três anos como auxiliar, Guilherme tornou-se diretor, com um salário quatro vezes maior.

O Rompimento e a “Punição”

Em meados de 2019, o cenário mudou. Gel, conhecido cacique político do PODEMOS em Ourinhos, desentendeu-se com Lucas Pocay em tratativas de alianças para a reeleição de Lucas. O rompimento culminou na exoneração de Guilherme do cargo de diretor, fazendo-o retornar à função original de auxiliar de serviços gerais.

Esse episódio foi o estopim para o inicio do conflito pessoal e político com Lucas Pocay, uma animosidade exposta publicamente até hoje. A perda do cargo de confiança marcou a entrada definitiva de Guilherme na política partidária, elegendo-se vereador em 2020.

Segundo ex-servidores ouvidos pela reportagem, que pediram anonimato, a briga com Pocay gerou retaliações. Guilherme teria sido escalado para o serviço de coleta como uma espécie de punição administrativa. “Ele ajudou durante uns três meses porque estava brigando com o Lucas. Na época, o superintendente da SAE era o Inácio, mandou ele pro caminhão catar lixo com a gente. Depois disso, parece que ele pediu licença médica”, revelou um dos funcionários que conviveu com ele no período.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *