
O que deveria continuar sendo um centro de excelência em arte-educação tornou-se palco de disputas políticas, denúncias de desmandos e favorecimentos. Professores da Escola Municipal de Música de Ourinhos (EMMO) quebraram o silêncio e protocolaram junto às Secretarias de Administração, Governo e Controladoria Geral do Município, um manifesto, denunciando uma série de irregularidades que ameaçam a existência da instituição. O relato aponta uma gestão marcada por ingerências, falta de diálogo e o uso da estrutura pública em esquemas para interesses particulares.
Projeto de R$ 1,2 milhão e a retaliação
Tudo começou a partir de um ponto considerado crítico nessa história, que envolve diretamente o Secretário de Cultura, Jeferson Bento, conhecido como “Maestro”. Em agosto de 2025, a Prefeitura tentou contratar, sem chamamento público ou licitação, o Instituto OSNB (Orquestra Sinfônica Nacional Brasileira), uma Organização Social (OS) da qual Bento é sócio-presidente.
De acordo com os professores ouvidos pelo Ourinhos Diário, o projeto OSNB visava instrumentalizar a mão de obra da EMMO, usando os docentes para atuar em escolas municipais dentro de um programa que repassaria ao Instituto uma verba de aproximadamente R$ 1 milhão e 200 mil.

O fato configurou-se como um escândalo de evidente conflito de interesses, contrariando os princípios da transparência e impessoalidade. Após a denúncia do caso pelo jornalista Bernardo Felipe Seixas (Jornal Biz), o contrato foi revogado, mas o reflexo na escola de música foi imediato: começaram as perseguições, o rompimento de diálogo e exonerações de técnicos que não se alinhavam à postura da pasta.
Apadrinhamentos e desprezo técnico
A desestabilização administrativa da EMMO não é um fato isolado, mas o ápice de uma série de nomeações que ignoram a competência técnica em favor de apadrinhados políticos. O histórico de descaso começou com uma tentativa quase caricata no início do ano passado: a indicação de um motorista para gerir a instituição. Embora a pressão do corpo docente tenha revertido a decisão na época, a “solução” subsequente manteve o mesmo padrão de despreparo.
Atualmente, após a exoneração de coordenadores com histórico na área, a direção da escola foi entregue a uma auxiliar de educação infantil sem qualquer quilificação na área. A mudança gerou um abismo hierárquico e pedagógico: enquanto o edital do concurso exige dos professores formação em Licenciatura ou cinco anos de experiência comprovada, a cadeira da diretoria é ocupada por alguém sem qualquer vivência ou formação no setor musical.
“Somos cobrados pela formação, mas quem nos gere não possui conhecimento técnico”, desabafa um docente que pediu anonimato por medo de retaliações.
Gestão por WhatsApp e descaso patrimonial
Sem sede própria e funcionando de forma improvisada entre as instalações do projeto Guri e o espaço VilaMar, dois prédios sem estrutura básica com falta de ventiladores, equipamentos adequados, que até o momento a Secretaria de Cultura não se responsabilizou em fazer melhorias necessárias. A rotina da nos locais de trabalho improvisados é descrita como caótica.
- Autoritarismo: Decisões sobre horários e ensaios tomadas unilateralmente via mensagens de aplicativo, ignorando o planejamento pedagógico.
- Barreiras Administrativas: Dificuldades impostas pela direção para que os professores cumpram suas cargas horárias de 30h ou 40h.
- Insegurança: Furtos de equipamentos e instrumentos devido à falta de vigilância.
O desmanche de uma história de 30 ano
Para o corpo docente, o manifesto é um pedido de socorro contra a instrumentalização política de uma instituição histórica. “A impressão é que estão fazendo de tudo para acabar com a escola. É um descaso com os alunos e com a história da música na nossa cidade”, afirma o relato.
O caso já ecoa em instâncias jurídicas. Enquanto o impasse segue, os professores resistem, mas o alerta é claro: sem gestão técnica e profissionalismo, a Escola de Música caminha para o desmonte final.
Nota da Redação: Entramos em contato com a Secretaria de Cultura e com a Prefeitura para questionar os critérios de nomeação e as denúncias de falta de segurança, mas até o fechamento desta edição, não obtivemos resposta.

