José Luiz Martins
Se Guilherme Gonçalves usou as redes sociais como a grande vitrine e o palanque perfeito para seduzir o eleitorado, hoje essas mesmas plataformas funcionam como estilingue e o martelo de um tribunal digital, prontinho para estilhaçar o vidro e acelerar sua queda. É a ironia máxima: a ferramenta que criou o “prefeito pop tik toker” é a mesma que agora edita o vídeo de sua despedida.
Nas redes, o prefeito sempre foi esperto em usar o marketing político para projetar uma realidade paralela de eficiência digna de comercial de margarina. O problema é que o Wi-Fi da população funciona muito bem, e quando o serviço público falha, o cidadão usa o próprio celular para desmentir a narrativa oficial em tempo real. O post bonitinho sobre a “cidade dos sonhos” cai por terra com um simples comentário — com foto e GPS — mostrando o buraco na rua ou a falta de médico no posto.
A rede social, que antes era o diário oficial das “obras e conquistas”, virou um imenso SAC de reclamações e um repositório de denúncias. O contraste entre o filtro do Instagram e a realidade nua e crua das ruas gera uma indignação visceral. O mesmo algoritmo que impulsionou as promessas coloridas de campanha agora entrega, com uma rapidez cruel, os detalhes das investigações do Ministério Público e o nada glamouroso bloqueio de bens.
O mundo digital simplesmente matou o “tempo de espera” da política tradicional. Antigamente, uma crise levava meses para chegar ao café da Câmara; hoje, um pedido de cassação ganha força em minutos. A pressão sobre os vereadores tornou-se imediata e pública, tirando o oxigênio para aquelas manobras de bastidor que a velha política tanto ama fazer no escurinho.
O maior trunfo de um político “digital” é o controle da própria imagem, mas a maquiagem não resiste a uma crise financeira e judicial desse tamanho. A comunicação deixou de ser um monólogo do prefeito para o povo e virou um “tiro porrada e bomba” multilateral. Agora o jogo virou: servidores e entidades assistenciais ocupam o mesmo espaço para botar a boca no trombone, expondo os calotes e detonando o que restou da moral do prefeito em praça pública (e virtual).
No fim das contas, o caso de Ourinhos prova que a rede social é um território de “aluguel”: ela só te dá as chaves enquanto você paga as contas ou mantém a ilusão viva. Quando a confiança quebra e a Justiça bate à porta, a ferramenta que o elegeu vira o motor principal da sua desconstrução. Fica o aprendizado: o poder que vem pelo clique vai embora com um block.

