Na tarde de ontem após a divulgação de que o Ministério Público propôs uma Ação por Improbidade Administrativa com pedido de afastamento cautelar do prefeito por 90 dias em virtude de denúncias de irregularidades na UPA 24h e no PA Cohab, Guilherme Gonçalves veio a público se defender das acusações.
Em carta aberta divulgada ontem (19/05) em suas redes sociais o prefeito usa de uma narrativa política emocional com discurso piegas, vitimista, com forte apelo sentimental e religioso omitindo informações deixando lacunas técnicas e jurídicas cruciais para que seus seguidores compreendam a gravidade real do pedido do Ministério Público.
A ladainha começa com a minimização do motivo.Ao afirmar que o pedido “não é por corrupção,não é por desvio”e que apenas deu “sequência”a um contrato anterior para “não prejudicar a saúde”, ele omite quais foram as irregularidades apontadas pela promotoria no aditamento desse contrato.
O prefeito menciona que as pessoas julgam “sem ler o processo”, mas ele próprio não esclarece os termos do processo, omitindo os argumentos da promotora para justificar a necessidade do afastamento de 90 dias (geralmente solicitado para evitar interferência nas investigações ou destruição de provas).

Postura de Vítima
A carta é construída sobre a lógica do “eu contra o sistema”, onde se coloca como um alvo indefeso de forças ocultas e poderosas. Ele declara abertamente que “é clara a perseguição aqui” e que sofre “ataques desleais dia após dia”, transferindo a responsabilidade de uma ação fiscalizatória do Judiciário para uma suposta conspiração política ou pessoal.
Ataque ao Judiciário e comparação com o passado: Para se validar como vítima, ele ataca a imparcialidade da Justiça (“o que me dói é a diferença do judiciário”) e usa o argumento do “mas e os outros?”, citando escândalos de gestões anteriores que, segundo ele, não foram punidos com o mesmo rigor.
O “coitadismo” de classe: O texto recorre à sua origem social (“alguém que estava coletor como representante”) para sugerir que o pedido de afastamento é fruto de preconceito de classe por parte de “grandes magistrados”e de uma“classe”que não aceita sua ascensão, transformando uma questão jurídica em um embate de elite contra o povo.
Discurso Piegas e Apelo à Religião
O tom do texto abandona o caráter institucional que se espera de um chefe do Executivo e adota uma estética sentimentalista, utilizando a fé como escudo de legitimação política. O uso excessivo da palavra “dói” (“calúnia dói a alma”, “o que me dói”, “dói ver pessoas próximas”, “dói ler muitas coisas”) busca gerar empatia imediata pelo sofrimento do emissor, apelando para o sentimentalismo (discurso piegas).
Foi Deus que quis. Ele se autoproclama uma “autoridade constituída por Deus” e afirma que sua permanência no cargo reflete a vontade divina, o que blindaria sua gestão de críticas humanas ou fiscalizações legais.
Foi Deus que me disse. O ápice do apelo religioso ocorre quando o prefeito relata um diálogo direto com a divindade (“Questionei a Deus (…) ele me disse pra silenciar e aguardar”). Ao se posicionar como o “justo” que padece (“vão ver no final o que Deus faz por um justo”), ele transforma o julgamento de um contrato público de saúde em uma batalha bíblica entre o bem e o mal, sugerindo que qualquer um que critique suas ações administrativas está, por extensão, indo contra os planos de Deus.

