Herança de escândalos e desmonte: Nove anos que paralisaram a cultura em Ourinhos

Cidade Cultura & Lazer

José Luiz Martins

O enfraquecimento e a paralisação do setor cultural em Ourinhos não decorrem de um fator isolado, mas sim de um longo processo de fragilização institucional e descontinuidade administrativa iniciado na gestão de Belkis Fernandes e acentuado nos oito anos da administração de Lucas Pocay (2017 a 2024). Nesse período, a Secretaria Municipal de Cultura de Ourinhos teve cinco titulares.

O músico e professor do Conservatório de Tatuí Paulo Flores foi nomeado secretário logo no início da gestão, mas acabou passando o cargo para o músico Rodrigo Donato e Flores assumiu o cargo de direção da Escola Municipal de Música em fevereiro de 2017.

A Cooperativa Brasileira de Trabalho dos Profissionais das Artes

A saída dos dois ocorreu após 17 meses, quando a secretaria estava no centro de investigações do episódio conhecido como o “Escândalo da Cultura”. O caso envolveu diretamente Flores e Donato, resultando em sindicâncias, investigação policial, abertura de CPI na Câmara Municipal e denúncias formais pelo Ministério Público envolvendo a contratação da Cooperativa Brasileira de Trabalho dos Profissionais das Artes. A entidade operava como prestadora de serviços para a Prefeitura, sendo responsável principalmente pela gestão de aulas de música e projetos de ensino cultural voltados a centenas de crianças e jovens no município (como na Escola Municipal de Música)

Casa dos Músicos”: Lucas Pocay inelegível?

Esse foi um período conturbado, culminando com uma ação civil pública por improbidade administrativa incluindo Paulo Flores, Rodrigo Donato e o prefeito Lucas Pocay. Flores e o ex-prefeito respondem também a um processo criminal relacionado ao caso da chamada “Casa dos Músicos”. A ação trata de dispensa irregular de licitação, suposto desvio de rendas públicas em proveito particular e favorecimento político.

Em decisão recente o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) formou maioria agora, em agosto de 2026, para condenar o ex-prefeito de Ourinhos, Lucas Pocay, por crime de responsabilidade nesse caso, com votos da relatora e do revisor na 8ª Câmara de Direito Criminal.

Um pedido de vista do desembargador Juscelino Batista suspendeu a conclusão oficial do julgamento, embora a maioria dos votos já esteja formada. O cenário acende alertas jurídicos sobre a elegibilidade e o futuro político de Lucas Pocay.

Paulo Flores, Rodrigo Donato, Gustavo Tanus Martins, Vinicius Costa e Jefferson Bento atual secretário nomeado por Guilherme Gonçalves

Tanus / Chamorro

Em novembro de 2019, o pesquisador e doutor em Educação Gustavo Tanus Martins assumiu o cargo, permanecendo até o final do primeiro mandato com uma tímida e parcial estabilidade. Tanus tentou implantar propostas de integração entre Cultura e Educação, porém entregou o cargo em janeiro dezembro de 2020 após a confirmação da reeleição de Pocay.

Felipe Chamorro, jornalista e ex-secretário de Comunicação desde o início da gestão de Lucas Pocay, em 2017 – assumiu a Cultura numa espécie de nomeação “tampão” entre janeiro e maio de 2021, falecendo durante o exercício do cargo.

A escalada do desmonte cultural

Na sequência, Vinícius Costa, então secretário-adjunto, foi nomeado titular da secretaria até o encerramento do mandato de Lucas Pocay em 2024. Nesse período, houve uma contraditória estabilidade administrativa e a tentativa de reestruturação da imagem da pasta após a rotatividade de gestores, desgastes da má administração e os escândalos anteriores.

Costa enfrentou críticas severas por parte de artistas locais e professores, que apontaram retrocessos estruturais significativos no cenário cultural de Ourinhos.

  • Desmonte estrutural e abandono de espaços tradicionais: A crítica mais contundente e de maior impacto prático foi o fechamento do Centro Cultural. Sem o espaço tradicional em pleno funcionamento, as aulas remanescentes da Escola de Música, Escola de Dança e do Projeto Guri foram transferidas de forma provisória para o prédio do antigo Sesi, na Vila Perino. Professores e artistas locais denunciaram publicamente que o local improvisado sofria com graves problemas de infraestrutura e não oferecia condições técnicas e adequadas para o ensino das artes e atendimento aos alunos.
  • Diminuição do alcance dos projetos de formação: Para os críticos, a troca de grandes polos de formação artística contínua por oficinas de menor duração nas escolas reduziu a profundidade do aprendizado técnico que as tradicionais escolas municipais ofereciam historicamente.
  • Falta de diálogo com a classe artística independente: Conselhos de cultura e coletivos independentes de Ourinhos apontaram, ao longo da gestão, um excessivo controle político sobre o que era produzido e fomentado. Críticos argumentavam que a secretaria priorizava eventos institucionais de massa e decorações de praças (como a programação de Natal e o circuito comercial) em detrimento do apoio contínuo ao artista de base local que não estivesse atrelado à agenda direta da Prefeitura.
  • Continuidade e herança política: Por ter sido secretário-adjunto na mesma pasta durante o período das investigações da “Casa dos Músicos” e da CPI da Cultura, Vinícius Costa era visto pela oposição como uma linha de continuidade da gestão de Lucas Pocay. Críticos apontavam que sua presença servia para blindar politicamente a secretaria dos escândalos anteriores, sem que houvesse uma ruptura real ou uma reforma administrativa profunda na distribuição de cargos comissionados e verbas da pasta.

2025 / 2026 – Jefferson Bento

Com a vitória de Guilherme Gonçalves o maestro Jefferson Bento assumiu a Secretaria de Cultura com a promessa de recuperação dos equipamentos culturais e discurso de reconstrução da política cultural de Ourinhos. Mas, pouco mais de um ano depois, sua gestão passou a enfrentar críticas de agentes culturais, artistas e professores e vários protestos públicos com questionamentos, entre eles sobre a condução da Escola Municipal de Música, sobre o escandá-lo da tentativa de contratação de uma ONG ligada ao próprio secretário e sua esposa. Além de interpelações judiciais envolvendo a organização da FAPI 2025.

Mas essa história requer outro capítulo sobre o colapso cultural em Ourinhos, uma abordagem atualizada desse processo de decadência e o desabamento estrutural do setor em Ourinhos.

Uma cidade que durante décadas construiu tradição por meio de escolas municipais de excelência de música e dança, festivais, projetos de formação, equipamentos e politicas culturais de exito mas passou a conviver com uma estrutura marcada por equívocos, mudanças administrativas, desmandos, problemas de infraestrutura e críticas sobre a falta de diálogo com parte da comunidade artística.

Resta a pergunta para a administração “interina” de Alexandre Zóio que mantém Jefferson Bento na pasta e que, ao que tudo indica, permanecerá no cargo de prefeito com a previsível equipe de auxiliares:

Como reconstruir uma política cultural permanente, independente de governos e capaz de devolver a Ourinhos a importância, estrutura e o protagonismo cultural que a cidade já teve?

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