O drama das cirurgias eletivas entre os números oficiais e a realidade dos corredores

Cidade Saúde

José Luiz Martins

A promessa de colocar a “Saúde novamente em movimento” chega como alívio para conseguir ser atendido pela saude publica municipal. Em reunião entre prefeito Alexandre Zóio e membros da diretoria da Santa Casa de Ourinhos, ficou acertado um plano para realizar 1.258 cirurgias e procedimentos eletivos, por meio da retomada de um convênio de 2025, no valor de R$ 1,35 milhão.

O pacote contempla áreas como ortopedia, oftalmologia, cardiologia e neurologia e representa, sem dúvida, uma esperança para centenas de pacientes. Mas há uma pergunta que não pode ser ignorada: a fila realmente começou a andar ou estamos apenas diante de uma gota d’água em um oceano de necessidades?

Dados da secretaria de Saúde apresentados à Câmara Municipal apontam 5.936 pessoas aguardando procedimentos, número que revela o tamanho da demanda reprimida na rede pública de saúde.

O problema é estrutural e um mutirão, por maior que seja, não resolve sozinho uma demanda acumulada durante anos. A realidade dos corredores e das filas revela um sistema marcado por gargalos, burocracia e demora nos procedimentos.

Na oftalmologia, por exemplo, parte dos atendimentos ainda depende da conclusão de etapas burocráticas antes que os pacientes possam ser chamados. Enquanto isso, há pessoas esperando meses — e, em alguns casos, anos — por exames e procedimentos, muitas vezes tendo de refazer avaliações pré-operatórias que vencem antes mesmo da cirurgia.

O desafio de zerar o déficit estrutural

A parceria com a Santa Casa é vital, visto que o hospital é o único equipamento de alta e média complexidade com capacidade instalada para absorver tal demanda. No entanto, delegar a solução apenas a convênios temporários e repasses financeiros casuísticos transfere para o hospital uma pressão crônica, sem necessariamente resolver a raiz do problema.

Convênios temporários não eliminam o problema estrutural. Sem planejamento de longo prazo, equipes especializadas e financiamento permanente, a fila tende a voltar a crescer assim que o mutirão terminar.

A gestão de Zóio aposta na organização dos agendamentos e pede que os pacientes compareçam às consultas e procedimentos para evitar o desperdício de vagas. É necessário, mas insuficiente.

A verdade é que a fila começou a andar, mas ainda está muito longe de desaparecer. Para quem espera voltar a enxergar, caminhar ou simplesmente viver sem dor, o tempo da burocracia é muito diferente do tempo da necessidade.

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