José Luiz Martins
A derrocada de Guilherme Gonçalves revelou uma velha regra da política: quando o barco começa a afundar, a lealdade é a primeira coisa a abandonar o convés.
Com o governo acuado por problemas judiciais, contratos questionados e desgaste político, antigos aliados começaram a procurar novas trincheiras. E, curiosamente, Alexandre Zóio estava no lugar certo, na hora certa — justamente quando o espaço de poder começou a ficar vazio.
Nos bastidores, Zóio, Esquilo, André Melo e Leandro Moraes entre outros personagens que ajudaram a construir a vitória eleitoral de Guilherme, passaram a se aproximar novamente. A leitura política que circula é que o grupo teria se articulado, longe dos holofotes, para recuperar o espaço perdido e reassumir o controle da Prefeitura.
Se foi apenas coincidência ou uma operação política cuidadosamente calculada, os fatos ainda precisam falar.
Mas o resultado é bastante conveniente: os mesmos que ajudaram a eleger Guilherme agora aparecem entre aqueles que mais se beneficiam de sua queda.
O rompimento com Guilherme pode até ser apresentado como decisão política ou defesa da independência institucional. Mas, na prática, teve um efeito bastante conveniente: Zóio deixou de ser o vice de um governo em crise e passou a ser a alternativa de poder.
Com o afastamento de Guilherme pela Justiça, a oportunidade virou realidade. E antigos aliados começaram a encontrar abrigo no novo grupo com vereadores antes contrários as sanções a Guilherme sinalizando apoio a Zóio.
Nada pessoal, claro. Apenas o velho e eficiente pragmatismo político, afinal, na política, ninguém “muda de lado”. Apenas recalcula a rota.
E agora o cenário ficou ainda mais conveniente. Ao que tudo indica, Guilherme não deverá voltar ao cargo: nesta quarta-feira, a Câmara Municipal deve votar seu processo de cassação por improbidade.
Se a cassação for aprovada, aquilo que começou como uma substituição temporária poderá se transformar, para Zóio e seus aliados, na volta definitiva ao comando da máquina municipal.
A ironia é que, para chegar novamente ao poder, alguns dos que ajudaram a colocar Guilherme na cadeira agora são os mesmos a puxá-la debaixo dele.
É a clássica reciclagem da política paroquial: os atores que antes orbitavam o grupo vencedor mudaram de lado a tempo de garantir cargos e relevância na nova fase. Para Zóio, que começara o mandato na sombra e sob o ônus de uma vice-prefeitura decorativa, a derrocada do aliado funcionou como o bilhete definitivo para o controle total da máquina municipal.

