José Luiz Martins
Não podia dar em outra coisa. Bastava ligar os pontos, acompanhar os primeiros meses de governo e observar a debandada dos principais aliados que atuaram para eleger Guilherme Gonçalves e perceber que o roteiro já estava sendo escrito.
A queda de Guilherme Gonçalves foi sendo construída nos bastidores pelos mesmos que outrora estiveram ao seu lado, dia após dia, entre erros de uma gestão marcada pela absoluta incompetência, falta de preparo para administrar uma cidade engolida por uma crise financeira, e uma equipe que, em vez de ajudar a tirar Ourinhos do buraco, parecia muitas vezes estar procurando a pá.

A sessão que cassou Guilherme durou cerca de durou 11 horas, ás 00:57 minutos da madrugada desta 5.a feira (03), treze vereadores da Câmara de Ourinhos votaram a favor da cassação do mandato de Guilherme Gonçalves, fundamentada em denúncias de infrações político-administrativas e omissão ou negligência na defesa dos interesses do município.
Votaram a favor os vereadores Enfermeiro Alexandre (PSD), Gil Carvalho (PL), Furna Beco da Bola (MDB), Borjão (PSD), Cícero Investigador (REPUBLICANOS), Éder Mota (PSB), Vadinho (PODE), Anísio Felicetti (PSB), Raquel Spada (PSD), Kita (MDB), Wesley Carlos (REPUBLICANOS) e Marcinho Domingos, do MDB. Os dois votos contrários foram de João Gonçalves (PP) e Santiago (CIDADANIA).
Crônica de uma queda anunciada
Uma cidade mergulhada em dificuldades sem comando e planejamento técnico. Recebeu, em boa parte do tempo, improviso, decisões questionáveis e uma coleção de equívocos que aprofundaram ainda mais o desgaste. E os aliados? Ah, os aliados… Enquanto havia poder, cargos e espaço no governo, a fotografia era bonita. Quando a conta começou a chegar, começaram também as distâncias, os silêncios e as explicações. Na política, a lealdade costuma ser temporária — pelo menos enquanto durar a nomeação.
O desfecho acabou sendo a soma inevitável de tudo: as forças políticas que ajudaram a elegê-lo e depois viram o estrago, o Judiciário provocado a agir diante dos fatos, e uma população que percebeu, dia após dia, o tamanho do retrocesso imposto a Ourinhos.
Na Câmara, o silêncio também falou
Na Câmara Municipal, o espetáculo não foi muito diferente no começo. Vereadores caminharam com o freio de mão puxado, agindo de forma claudicante e medrosa, entre a cautela, a conveniência e o receio puro e simples de perder as benesses, os cargos e os acordos de gabinete que sustentavam o status quo.
Mas a política tem dessas coisas: enquanto o vento sopra a favor, todo mundo é corajoso. Quando a pressão aumentou e a corda esticou ao máximo, o cenário mudou. Aqueles que antes hesitavam perceberam que continuar abraçados ao barco furado seria o fim da linha, e a cassação acabou se tornando o único desfecho possível para carimbar o que a rua inteira já comentava.
E agora, de olho no previsível grupo de Zóio
Se alguém imagina que a saída de Guilherme encerra a novela política de Ourinhos, é melhor abrir os olhos. Entra em cena Alexandre Zóio e seu previsível grupo político. E é justamente aí que a população precisa redobrar a atenção, porque trocar o personagem principal não significa necessariamente mudar o roteiro.
No fundo, o grupo que assume representa o mais do mesmo em uma cidade que grita por renovação. Ourinhos não precisa apenas de um novo inquilino na cadeira principal; precisa de políticos que fujam de vez da velha política do toma lá, dá cá e do balcão de interesses montado conforme a conveniência.
Se o novo grupo quiser realmente provar a que veio, terá de mostrar na prática que não assumiu apenas para herdar a máquina. Caso contrário, será só mais um capítulo da mesma história de sempre — mudam as figurinhas, mas os velhos vícios continuam ditando o ritmo nos bastidores.

